
“Oi Vó! Quanto tempo, né? Não nos falamos desde dezembro de 2006, quando a senhora resolveu ir embora. Desde então, nunca te escrevi por diversos motivos. O primeiro é que achei chato te contar que o seu Corinthians havia caído pra segunda divisão. O segundo porque queria guardar a cartinha pra um dia especial. Ele chegou, Vó! Hoje tenho duas boas notícias pra senhora, por isso resolvi escrever. A primeira é boa só pra você. Aqui, ficamos tristes, mas tenho certeza que a senhora vai adorar poder abraça-lo. O Doutor tá chegando aí, Vó! Ele se foi e vai chegar rindo alto, já te conto porque. Hoje, domingo, o seu Coringão foi campeão brasileiro, Vó! No Pacaembu, como nunca havia sido. Em cima sabe de quem? Do Palmeiras… Acredita? Mas o Palmeiras não foi vice, só vou a cereja do bolo. Na verdade, empatou, zero a zero. Mas o importante é que o Corinthians ganhou. E sabe, Vó, lembrei muito da senhora hoje. Durante toda minha vida a senhora me mostrou um artigo de jornal onde um colunista exaltava a final de 77, quando o seu Corinthians saiu da fila. A senhora me contou diversas vezes o quanto aquilo mexia com você e o guardou por mais de 30 anos. Hoje, burro, irresponsável que fui, não sei onde está. Deveria ter pegado e guardado, mas me esqueci dele quando você foi embora. E aí, Vó, hoje quem tem que fazer um artigo pra exaltar o Corinthians sou eu. E é claro, na hora me lembrei daquele. Eu adoraria fazer algo bom o suficiente para que outra vovó de alguém guardasse com o mesmo carinho que você fez com aquele. Mas eu não sei se consigo. O que consigo é imaginar aquele sorriso de campeã que a senhora dava quando via o seu Timão nas alturas. E sei que agora, sabendo disso, está o repetindo. O Tite, lembra dele? Ele era do Palmeiras quando a senhora se foi. Ele foi o grande campeão. A senhora ia gostar dele, é um grande sujeito. Vó, eu tenho saudades de quando você mentia pra mim dizendo que torceu pro São Paulo contra o Corinthians pra me ver feliz. Eu sei que não, e hoje, bem maiorzinho, acho sensacional que você tenha tido esse cuidado. Sabe, Vó, eu não sou mais um torcedor fanático. Sequer me importo muito com o resultado em si. Meu trabalho fez isso comigo e eu não acho ruim. Mas as vezes que preciso entender o coração alvi-negro para escrever algo, lembro da senhora. Você me dizia que “o povo era Corinthians”, e eu ali, do alto de Pinheiros ou do Portal do Morumbi não entendia. Até sair, crescer e poder ver. O rebaixamento? Esquece isso, Vó! Foi passageiro, bobagem. Tão dramático a queda quanto foi lindo o retorno. Mas era isso, Vó. Te escrevo hoje pra te pedir pra colocar a cerveja na geladeira pra quando o Doutor chegar. E especialmente pra te contar uma coisa. Vó, o povo está feliz! Deu Corinthians. Um beijo com saudades do seu neto querido, Ricardo. Ou, hoje, só RicaPerrone.”